domingo, fevereiro 13, 2005

sempre à porrada menino...

Gostava de ter andado à porrada quando era puto. Em vez disso, nas festas de anos, sentava-me ao lado de um qualquer adulto, neurótico com a criançada, e esgotava-lhe a reduzida paciência com perguntas indiscretas e histórias sobre viagens fora da minha terra. Não comia doces e tirava o queijo e fiambre do pão. Quando finalmente os meus contemporâneos se fartavam dos pontapés e cabeçadas fechava-os no quarto e obrigava-os a brincar ao quarto escuro. Quando os meus pais chegavam para me buscar, sorridentes e preocupados, perguntavam se eu estava bem, se ninguém me tinha atirado pela janela. E eu lá aparecia a dizer que queria ficar a brincar mais um bocadinho, acompanhado dos outros meninos que subscreviam a petição. Ficavam os pais sobrantes, todos à conversa: (- O seu não come nada; - é, não gosta de nada, é muito difícil alimentá-lo, nem no colégio... - ai, está outra vez mais caro, já viu? Aquelas... blá, blá, blá).
Quando ia a casa do meu melhor amigo ficava chocado com as guerras de molas que o Hugo e o Vasco (nomes fictícios, na realidade todos os meus amigos se chamam João.) faziam, um contra o outro, os dois contra o Pai, and so on... Achava promíscuo mudar assim de aliado, como quem muda de boxers. Assistia, candidamente, como se do jogo do Sporting se tratasse, e depois ficava feliz por ter acabado a tortura, como se do jogo do Sporting se tratasse. Pelo meio tinha que responder à mãe ( tem um nome a senhora, mas lá em casa chamam-lhe mãe) que não, não queria comer nada, e que não, a minha mãe não ia pensar mal da mãe se chegasse a casa sem comer nada. No fim, atirava uma mola à cara de alguém e comia uma carcaça, não fosse ficar com fama de anti-social. Não sei porque carga de água, acharam piada ao voyeurismo e continuaram a convidar-me rotineiramente para o espectáculo.
Na rua onde brincava só havia meninas, e não andávamos à porrada. Brincávamos aos médicos.
Na escola divertia-me a descobrir recantos para esconder a comida que não comia, e a mim próprio quando havia porrada ou ameaças disso, o que era frequente. Por essa via, fiquei célebre entre os meus pares como inventor e mestre do famoso jogo ( como é que aquilo se chamava, caralho? Invadir o Colégio? Acho que era isso...) "Invadir o Colégio", cujo propósito era enganar as vigilantes com uma peta qualquer, entrar pelo edifício adentro durante o intervalo (muito proibido), descobrir um bom esconderijo e dar com elas em loucas quando se apercebiam que não voltávamos. No fim ganhava (eu) quem entrasse a horas na sala de aula sem ter sido apanhado.

Pensando melhor, não gostava de ter andado à porrada quando era puto. Gostava mesmo era de andar à porrada agora.